segunda-feira, 13 de junho de 2016

Chocolate: o Otelo circense


Festival Varilux de Cinema Francês 2016

As origens do circo remontam ao desenvolvimento das civilizações antes de Cristo mas, como espetáculo de variedades para entreter o público, tem incipiência durante o Império Romano com a luta de gladiadores, as corridas de carruagens e a exibição de animais selvagens. A forma do circo moderno, como conhecemos atualmente, começa a ganhar força a partir do crescimento das cidades e da vida urbana. As atrações tinham como objetivo causar assombro e encantamento, além de fazer o público gargalhar com as estripulias do palhaço, o carro-chefe da arena de apresentações. No intuito de provocar a curiosidade das multidões, os empresários do circo recorriam a diversos números apelativos, sempre com um viés de exotismo, que tinham o intuito, ora de provocar o riso, com a exibição da mulher mais gorda do mundo, por exemplo; ora de provocar o espanto, com o homem negro canibal vindo da África. Era o século XIX e, nessa época, o pensamento burguês branco era o que ditava as regras e o conceito da palavra preconceito ficava muito mais recôndita do que expressa. Além disso, muitos profissionais do circo se submetiam ao escárnio das elites, principal público do picadeiro, por motivos de sobrevivência. É neste cenário que se desenvolve o excelente Chocolate, filme francês dirigido por Roschdy Zem que narra a trajetória do primeiro artista circense negro da França.

No roteiro de Cyril Gely, o famoso palhaço Footit precisa reinventar suas ideias para manter o seu emprego no circo Delvaux. Quando ele assiste a um homem negro apresentando-se como Kananga, o canibal rei da África, decide chamá-lo para fazer uma parceria inédita na história, na qual se apresentariam como uma dupla de palhaços. A característica fenotípica de ser um branco e um negro seria o diferencial. Kananga é rebatizado como Chocolat e sai da condição de "shows de bizarrices" para adentrar no mundo dos palhaços, muito mais bem remunerado e com maior fama entre o público, principalmente, entre as crianças. O sucesso é arrebatador. A dupla cresce e acaba recebendo um grande contrato para se apresentar em Paris, cidade-sede dos grandes espetáculos circenses na transição do século XIX para o XX. O grande mote desse enredo, baseado na história real de Rafael Padilla, é colocar o protagonista consciente do preconceito que sofria. Apesar da promoção recebida, que o tira da condição de ser visto como uma besta-fera para se tornar um célebre palhaço, os números apresentados com o seu parceiro branco, na maioria das vezes, o colocava em posição de humilhação. Uma vez em Paris, e no auge de seu sucesso, o protagonista começa a despertar a ira das elites brancas que não conseguiam aceitar que um negro fizesse tanto sucesso. Não é preciso dizer que Chocolat sentirá na pele, literalmente, o peso violento do racismo da época.

O cineasta nos coloca para dentro do mundo colorido e encantado de um circo, recorrendo a um impecável trabalho de direção de fotografia, figurinos e cenografia. A reconstituição de época no filme é primorosa e elegante. Porém, é por detrás das cortinas que Roschdy direciona as lentes de sua câmera desnudando a ignorância humana da época. Os donos do negócio apelavam para todo o tipo de apresentação que pudesse dar retorno financeiro e com o argumento de que estavam lidando com artistas, submetiam seus contratados as mais profundas formas de desrespeito. Chocolat, nome que por si só focava na cor da pele como forma de atração, acreditava estar inserido neste universo artístico cuja função maior era entreter acima de qualquer outra coisa. Com fama e dinheiro, pôde satisfazer seus prazeres mais miúdos, como o interesse por belas mulheres e o vício em jogos que acaba o levando à ruína. No entanto, é a realidade do preconceito que lhe revela os caminhos mais desgostos da vida em sociedade. Sua decadência se dá quando começa a contestar a condição de alienação na qual se encontrava no palco. Uma cena demonstra essa tomada de consciência quando ele se vê diante de um pôster de divulgação do espetáculo sendo retratado açoitado por Footit e com feições de um animal. 

Há no filme um paralelo com a tragédia shakespeariana Otelo, cujo personagem negro  - naquela época, sempre interpretado por atores brancos com o rosto pintado - desperta o interesse de Rafael Padilla. Na interpretação dele, Otelo foi vencido pela ingenuidade de querer ser igual ao outro, ou seja, foi derrotado por querer ser igual ao branco numa sociedade hipócrita que jamais permitiria que isso acontecesse. Entra aqui uma breve e interessante reflexão do poder da literatura na transformação do homem, pois é a partir dela que o palhaço negro começa a ter compreensão da falsa cordialidade que o cercava e da forma preconceituosa como era tratado. É útil lembrar do filme O Homem Elefante de David Lynch, cujo protagonista portador de uma anomalia acaba “adestrado” para fazer graça e horror às plateias de um circo. Tanto em Chocolate quanto em O homem Elefante o cerne da questão é a forma estúpida como o homem lida com as diferenças. 

A amizade afetiva e conflituosa dos dois palhaços se torna algo quase palpável pela plateia, resultado da desenvoltura dos brilhantes intérpretes. James Thiérrée, ator suíço - neto de Charlie Chaplin - que também é artista de circo na vida real, conduz seu Footit com precisão, contrastando o amor à arte com a solidão da vida privada. Porém, é de Omar Sy a grande performance do longa-metragem, o ator de filmes como Intocáveis (disponível no Netflix) e Samba dá um show na pele de Chocolat numa atuação que revela a entrega,  o carisma, a incorreção e o sofrimento do personagem retratado. Sem dúvidas, Omar Sy é um dos grandes atores franceses do momento. A produção ainda resgata os preciosos registros do artista negro circense na obra de Toulouse-Lautrec (ver foto ao final do texto) e na câmera dos irmãos Lumière, os precursores do cinema, em imagem rara exibida ao final da projeção.

Chocolate é uma cinebiografia de primeira que nos faz pensar sobre os limites do humor, sobre a consciência da própria alienação perante o mercado de trabalho, a desumanização de indivíduos, e ainda provoca uma reflexão sobre a condição do que é ser artista. Nos tempos atuais, na cultura circense, felizmente, já não são permitidos números com tamanho rebaixamento de seres humanos. Isso prova que a humanidade tem evoluído - às duras penas, não há como negar – porém, olhada em retrospecto, é difícil ficar indiferente as feridas incicatrizáveis deixadas como registro em um passado não tão distante. No entanto, a tragédia maior, ao assistir este trabalho cinematográfico, é perceber que esse tipo de comportamento, de fazer espetáculo de gosto duvidoso com as diferenças, ainda seja recorrente em pleno século XXI como, por exemplo, nos linchamentos de ladrões (sempre negros) amarrados à postes de luz para exibição pública, ou nos terríveis bullyings sofridos por muitas crianças e adolescentes nas escolas, por divergirem do padrão socialmente aceito, ou mesmo num estupro coletivo de uma mulher indefesa que é postado nas redes sociais com ares de diversão. Não há como negar, na contemporaneidade, o “circo” da ignorância, infelizmente, ainda existe e, parte dele, está na Internet.

obras de Toulouse-Lautrec registrando o palhaço Chocolat

Nenhum comentário:

Postar um comentário