domingo, 30 de junho de 2013

Faroeste Caboclo: mais que uma transposição de artes.

            
            Adaptar um romance, uma peça de teatro ou uma música para a linguagem do cinema é sempre uma tarefa difícil. Primeiro porque é preciso lidar com as dificuldades inerentes à própria obra e depois é preciso enfrentar os fãs que geralmente são inflexíveis no que concerne às mudanças feitas no original. O que dizer então de uma adaptação de uma das músicas mais emblemáticas do rock nacional e que foi eternizada pelo grupo Legião Urbana?

      Faroeste Caboclo, a música, sempre teve um viés cinematográfico assim como muitas outras canções da Legião Urbana. Ao ouvi-la, é como se estivéssemos acompanhando um filme que narra a saga de João de Santo Cristo que “deixou para trás todo o marasmo da fazenda” e foi tentar a vida na cidade grande, mas precisamente em Brasília onde “ele ficou bestificado com a cidade”. Lá, ele tenta a vida como carpinteiro “mas o dinheiro não dava para se alimentar”. Então, encontra um parente chamado Pablo, “um peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá”. O traficante logo lhe arruma um servicinho e daí em diante João torna-se traficante. É preso “e pro inferno ele foi pela primeira vez” sofrendo “violência e estupro de seu corpo”. Na capital federal conhece Maria Lúcia “uma menina linda” e se apaixona. No entanto, Jeremias “o traficante de renome” decide acabar com João e o embate representado como um faroeste americano é exibido pela mídia “que deu noticia do duelo na tv” e por fim Santo Cristo é santificado pelo povo “porque sabia morrer”. A música fazia críticas sociais e crítica ao governo e mostrava a descida ao inferno do personagem criado por Renato Russo. Escrita em 1979 e lançada em 1987, muitas rádios à época tiveram dificuldade de tocá-la por causa de seu conteúdo polêmico e pela longa duração.

            Faroeste Caboclo, o filme, fez uma conversão não linear e os milhares de fãs podem chiar com esse procedimento não muito fiel. Fabrício Oliveira encarna o João de Santo Cristo. Negro, vindo do sertão onde perdeu a mãe para a seca e o pai foi assassinado por um soldado. Desde cedo, João viveu em um mundo de perdas, dores e sofrimento. Logo no inicio da projeção, a câmera foca nos olhos sofridos do protagonista em close-up na tela. Depois, assistimos a uma cena na qual ele joga um balde num poço para pegar água. Ele puxa a corda e quando tem o recipiente novamente em mãos não há nada. O balde está vazio, seco. A cena é uma excelente metáfora da própria vida daquele homem brutalizado desde criança.

            Uma das grandes modificações feitas pelo roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein foi em relação ao final da canção. Eles preferiram deixar de lado o espetáculo para dar lugar à tensão trágica. No filme não há registro feito pela televisão durante o duelo do personagem principal e seu grande rival. E isso aconteceu justamente porque Faroeste Caboclo, o longa-metragem, não é a história de um único homem que ganha fama pela sua coragem e sua falta do medo de morrer. Trata-se da história de muitos homens que, tanto quanto João, são tragados pelo sistema, pelas desigualdades sociais e pela desumanidade da violência. A preferência aqui não é morrer como uma celebridade mas como anônimo, assim como todo homem vilipendiado pela vida.

Essas escolhas do roteiro são bastante acertadas e unem-se as atuações visivelmente esforçadas de todo o elenco. Isís Valverde, famosa por suas personagens voluptuosas e exageradas na televisão, encontrou um tom de atuação mais comedido e acertou mais do que errou com sua Maria Lúcia, estudante de arquitetura e filha de um senador de Brasília interpretado por Marcos Paulo em seu último papel antes da morte em 2012. No elenco ainda há as presenças de Flavio Bauraqui como o pai de João e Antônio Calloni caricaturado como um policial corrupto. A direção do estreante René Sampaio é interessante por privilegiar um produto audiovisual mais autoral fugindo da armadilha de ser um videoclipe estendido. O que ficou perceptível durante toda a exibição foi o esforço da produção de fazer algo digno e não apenas mais uma produção para atrair os fãs da Legião Urbana. Decisão que seria mais fácil de ser tomada visando o sucesso do grupo que, depois de décadas, ainda tem muitos fãs e força vital para conquistar as novas gerações. 

A fotografia de Gustavo Hadba é outro elemento bem realizado no filme e que ajuda a contar essa história brutal, verdadeira e cruel de um sujeito que, mesmo tentando seguir por um caminho honesto, acaba se desviando para uma vida de bandido porque simplesmente não consegue sobreviver. Impossível ficar indiferente a todo o sofrimento e violência sofridos pelo herói trágico da película. O incômodo que nós sentimos como espectadores ao vermos a desgraça de Santo Cristo foi muito bem representado numa cena na qual Maria Lúcia vai visitá-lo na cadeia e o encontra surrado. A jovem espanta-se diante da situação, saí calada da delegacia. Na porta de saída, a câmera a filma caminhando para a rua, destorcida e fora de foco sob forte luz do sol como se estivesse se desintegrando, mal conseguimos vê-la. A cena reflete bem o impacto que ela sofrera diante daquilo que acabara de ver. A mensagem é clara: mesmo não sendo a vitima, o mundo nos desintegra o tempo todo.

Faroeste Caboclo não é um filme perfeito. Muitas vezes tem um ritmo irregular. Porém, sem se deixar levar pela necessidade de fazer uma adaptação fiel, acaba por nos mostrar muito mais que uma mera transposição de artes. Mostra-nos um Brasil violento do sertão até às grandes cidades. Uma terra que assim como nos filmes de faroeste a única lei é a da sobrevivência. Não é à toa que o diretor não economiza na violência extremada, nos assassinatos cruéis e nos palavrões. (Isso pode incomodar boa parte da plateia mais conservadora). O clímax, o duelo de João e Jeremias que emula um faroeste, não se esqueceu de utilizar-se de todos os recursos próprios do gênero: os close-ups nos olhos dos oponentes, a caminhada que gera a expectativa do tiro final, a trilha-sonora, a Winchester-22 e o desfecho violento. Ao final, depois de ouvirmos os acordes da música adaptada permeando muitos momentos da produção, o público é presenteado com a música na íntegra que, com seus quase dez minutos, encerra o filme.

terça-feira, 4 de junho de 2013

As séries mais bem escritas de todos os tempos

A associação de roteiristas americanos (Writers Guild of America) elegeu as 100 séries mais bem escritas de todos os tempos. Como em toda lista, ausências são sentidas. No entanto, julgar as séries mais bem escritas é, definitivamente, uma tarefa difícil. Os Estados Unidos vem ao longo de décadas exercitando a escrita de roteiros para seriados e atualmente vive seu auge de talento e criatividade. Não é à toa que muitos críticos especializados andam ovacionando os roteiristas de televisão em detrimento dos roteiristas de cinema alegando haver uma crise de ideias originais na sétima arte enquanto a televisão vive seu momento mais próspero.

De fato, as séries americanas conquistaram seu lugar no mundo e no coração de milhões de espectadores mundo afora. Quem não tem ao menos uma preferida? No Brasil, país essencialmente noveleiro, o formato de seriado vem ganhando nos últimos anos novo fôlego. Muito disso se deve a nova lei que impôs pelo menos 3 horas de programação nacional em horário nobre na tv a cabo. Canais como Multishow e GNT vem produzindo para o horário programas que muitas vezes deixam a desejar mas que têm chamado a atenção do público e da crítica para um filão poderoso junto à audiência. “Sessão de terapia”, dirigida por Selton Mello, mostrou o potencial que nós temos para realizar bons programas episódicos.

O investimento no gênero é algo que a Rede Globo vem fazendo de forma regular há um bocado de anos com destaque para as comédias. É bom lembrar que, apesar da superficialidade da maioria de seus programas, tivemos no mesmo canal programas de qualidade como a série “Mulher” estrelado por Eva Wilma em 1999 e recentemente “A Cura” de João Emanuel Carneiro. Nos dias que correm, há um verdadeiro boom das séries em todo o mundo e muito desse sucesso tem como aporte a internet, arma poderosa para o sucesso ou fracasso de qualquer programa. “Dexter”, “Game of Thrones”, “Walking Dead”, só para ficar com alguns exemplos, têm se transformado em grandes febres mundiais.

Desde muito novo acompanho esse tipo de programa em sequência realizado com dedicação e recorrência pelos roteiristas e diretores americanos e tenho observado como, ao longo do tempo, a técnica foi sendo burilada. É óbvio que não assisti a todas as séries mencionadas na lista e de muitas tenho apenas uma vaga lembrança na memória. Na lista, há alguns seriados que não considero tão bem lapidados no quesito escrita, mas sei que toda lista, por mais imparcial que queira ser, acaba por levar em conta gostos bastante pessoais. Contudo, pensando em texto criativo, narrativa que prenda a atenção e originalidade, que acredito serem alguns dos critérios utilizados para a seleção, eis que listo cinco obras seriadas recentes que considero muito bem escritas:

1-     24 horas
2-     House
3-     À sete palmos
4-     Freeks and Geeks 
5-     Os Simpsons

Listar as séries mais bem escritas antes de mais nada é valorizar o trabalho de quem realmente cria o show, ou seja, o roteirista. Este profissional, por muito tempo relegado a segundo plano, tem recebido cada vez mais atenção por ser ele o responsável pela existência de filmes, séries, novelas e qualquer outra produção que necessite de roteirização. Um filme ou série pode até ter bons atores e uma boa direção, mas sem um bom roteiro dificilmente será um grande programa.

Aqui, a lista das cinco séries selecionadas pela associação de roteiristas e o link para ver a listagem completa.

1- Família Soprano
2- Seinfield
3- Além da imaginação
4- All in the family
5- M.A.S.H


sábado, 11 de maio de 2013

"Amores Imaginários": um exercício visual sobre o olhar do apaixonado.



Até que ponto o amor não seria uma ilusão,  algo inventado pelo homem para ocupar nossas mentes e que no decorrer do tempo foi se entranhando em nossas vidas de forma que mal compreendemos os porquês desse sentimento? Desde o Romantismo, o mundo ocidental foi lançado num emaranhado de situações idílicas e sublimes que nos fez alimentar o desejo de que, em algum momento de nossa existência, amaríamos e seríamos amados. Em tese, essa relação de completude pelo amor estaria relacionada à uma ideia de perfeição. Ao encontrarmos o outro, a tal cara-metade, nos tornaríamos perfeitos, plenamente felizes e realizados. O Romantismo como movimento que dominou as artes no século XIX ficou para trás. No entanto, suas marcas permaneceram indeléveis até hoje. É desse amor romântico desdobrado em uma felicidade pertencente apenas ao plano das idéias, sem relação alguma com a realidade, que  provém os sentimentos mais contraditórios e consternantes. Certa vez, li algo que dizia que a idealização é a irmã siamesa da frustração. Nada mais sábio poderia ser dito sobre o amor romântico.

Depois desse preâmbulo analítico, me atenho ao filme “Amores Imaginários” do jovem cineasta canadense Xavier Dolan. O rapaz de apenas 24 anos é dono de um estilo que vem marcando sua recente filmografia. Ele escreveu seu primeiro roteiro aos 16 anos e aos dezenove filmou seu primeiro trabalho intitulado “Eu matei minha mãe” (recomendadíssimo) laureado com três prêmios do Festival de Cannes. Recentemente, lançou seu terceiro filme chamado “Lawrence Anyways” (Filme que ainda não assisti). Todos os longas-metragens que realizou foram selecionados para festivais e chamou a atenção da critica mundial. Isso só aconteceu porque Dolan é um daqueles diretores que ao modo Tarantino, Almodóvar e Woody Allen faz da tessitura de seus filmes um trabalho bem particular. Dia desses, conversando com uma amiga, ela me perguntou qual dos dois primeiros filmes do Xavier Dolan eu gostava mais. Fiquei num impasse, pois acho os dois filmes muito bons, diferente da crítica especializada que elogiou muito o primeiro filme e dividiu opiniões com o segundo. Eis que vos escrevo sobre a experiência de assistir "Amores Imaginários".

A película tem um roteiro bastante trivial. Trata-se de um triângulo amoroso no qual dois grandes amigos, Marie (Monia Chokri) e Francis (Xavier Dolan) se apaixonam pela mesma pessoa, o jovem Nicolas (Niels Schneider), um rapaz enigmático que não se sabe ao certo sobre sua orientação sexual. Tanto os protagonistas como nós, expectadores, ficamos sem saber se ele corresponde aos interesses da dupla. Também não fica claro se o desejado sabe dos planos dos desejantes e dessa forma estaria jogando com o sentimento alheio a seu bel-prazer. Durante a projeção acompanhamos a jornada dos dois amigos na missão de conquistar a atenção e quem sabe o amor do moço de cabelos loiros encaracolados, que ora parece pender para um lado, ora para o outro, sem nunca deixar clara as suas reais intenções, se é que ele as têm.

A grande sacada desse jovem cineasta/ator/roteirista é justamente tragar o seu expectador para dentro do universo desses amigos enamorados. Por isso, o abuso de cores durante toda a projeção é uma marca constante. Desde as roupas que usam até os cenários tudo vem destacado em cores fortes que dão o tom ora apaixonado, ora dramático que as cenas exigem. A fotografia é belíssima e realça os exageros da busca amorosa. Lembrei-me, com as devidas diferenças, do filme “Moulin Rouge” de Baz Luhrmann que, junto aos seus diretores de fotografia e arte, criou um mundo de cores desmedidas para falar do amor romântico. O Moulin Rouge é todo demasiadamente excessivo. A estilização de “Amores Imaginários” é um trabalho semelhante. O roteiro é essencialmente visual, ou seja, a imagem tem mais poder que a palavra. A narrativa trata do mundo de fantasias no qual os apaixonados chafurdam a alma sem pensar em conseqüências. Todo mundo que já se apaixonou alguma vez na vida sabe do que estou falando aqui. Para um apaixonado, o mundo é outro. Tudo ganha um contorno diferente. Os cinco sentidos ficam apurados de um jeito bastante peculiar. O diretor aproveita-se dessas sensações confusas para nos entregar um filme no qual gestos, silêncios, respirações e intimidades dizem muito sobre nós mesmos e sobre o amor. É nesse estranho mundo, vivido por aqueles que se apaixonam perdidamente, que Xavier Dolan está dando enfoque. Daí, esse universo criado para o longa-metragem ser artificial, idílico, onírico, teatral e colorido. E o comportamento dos dois amigos que brigam pela atenção de Nicolas ser individualista, egoísta, histérico e até meio bobo. 

Boa parte da crítica especializada viu nessa representação dos personagens algo vazio. Para esses críticos, o diretor fez um retrato estúpido da juventude, um trabalho empobrecido de criatividade que se apoiou apenas em referências do cinema para criar um filme estiloso. Outros (incluo-me entre esses), viram justamente o contrário. As referências estão inevitavelmente lá e em boa parte é resultado da mente cinéfila de Xavier Dolan. Cenas que lembram “Jules e Jim” (clássico de Truffaut) e “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci, citações à “Bonequinha de luxo”, referência ao estilo poético de fazer cinema de Wong Kar-Wai, tudo isso permeia a obra. Mas não vejo nisso um sinal de empobrecimento e sim de conhecimento. A construção de um estilo por meio de referências é algo bastante recorrente em jovens cineastas no mundo contemporâneo.

A grande temática do filme é a idealização do amor e por isso a câmera do realizador tenta representar a todo o momento o olhar do apaixonado. Por isso, as disputas da dupla beiram às brigas infantis algo que fica evidente na banal cena em que se engalfinham no campo durante uma viagem que fazem juntos. A obsessão leva o entusiasta do amor a ver a pessoa desejada por um viés de encantamento e perfeição. Daí a comparação feita com a estátua de Davi durante uma sequência do filme na qual se contrapõe a imagem de Nicolas com o reflexo da famosa obra de Michelangelo. O amor tem dessas coisas, trata-se de um arrebatamento inexplicável. Decorrente desses excessos do sentimentalismo amoroso, o exagero torna-se  uma das marcas do longa-metragem assim como é do amor platônico. Assim temos, durante toda a projeção do filme, muita câmera lenta, músicas tocando a todo o momento, abuso de cores, caras e bocas em excesso, cenas repetitivas. Tudo isso pode ser interpretado como algo que colabore para o mau andamento do filme, mas para uma história que aborda a dimensão excessiva do mundo dos apaixonados, a meu ver, tudo se encaixou de forma bastante competente.

Além da história desse triângulo amoroso imaginário que norteia o filme, o enredo é entremeado de momentos em que Marie e Francis se encontram com estranhos. As cenas são apresentadas em cores fortes que tomam toda a tela (vermelho, amarelo, azul e verde) e ao fundo ouvimos a música clássica de Bach. O contraste entre a música pungente e a coloração intensa concede à cena um tom dramático e melancólico resultante da frustração dos protagonistas que procuram no sexo sem compromisso a válvula de escape para o sentimento doloroso da paixão não correspondida.

“Amores Imaginários” tem um viés de comédia romântica e pode ser visto como uma fábula sobre o amor que alimentamos por alguém e que muitas vezes está longe de ser recíproco. Muitas vezes nos apaixonamos por uma ideia de amor e não necessariamente pela pessoa objeto dessa adoração. É aí que reside o perigo das relações amorosas. O filme é uma experiência visual cinematográfica, que pode ser boa para alguns ou entediante para outras. Tudo vai depender da forma como cada um captará as mensagens que ali estão presentes. A produção ainda vem permeada por declarações de estranhos que em tom documental falam sobre suas decepções amorosas. Nessas cenas que interrompem a narrativa, frustração, dor, decepção, humilhação e vergonha são sentimentos que tomam conta dos ex-apaixonados, assim como será inevitavelmente para os nossos dois protagonistas que numa bela cena final dividem o mesmo guarda-chuvas.

Amores Imaginários
(Les Amours Imaginaires - Canadá / 2010)
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider e Anne Dorval.
Duração: 95 minutos




sexta-feira, 3 de maio de 2013

"Depois de maio": cinema, música, artes plásticas, drogas, sexo e...política.


Um professor de literatura do ensino médio lê um trecho de um  livro de Pascal que diz: “Entre o céu e o inferno só existe vida, que é a coisa mais frágil do mundo”. A cena se encerra e somos levados a uma outra na qual presenciamos um grupo de jovens anarquistas que movidos por um intenso desejo de liberdade e revolução vão às ruas brigar por seus ideais. A violência toma conta da tela em impressionante sequência. A polícia opressora manifesta-se como bem conhecemos: tiros, bombas de gás lacrimogênio, chutes e espancamentos. A barbárie está instalada e o que é humano, racional e sensível vai por água abaixo em segundos. Ali, não há vida, não há humanidade, não há respeito. Assim, inicia-se o filme “Depois de maio” do diretor francês Olivier Assayas. Uma produção que lança um olhar sobre a juventude revolucionária depois de maio de 68, um dos momentos mais importantes do movimento estudantil francês.

O longa-metragem acompanha o jovem idealista e politicamente engajado, Gilles. Como todo jovem de sua idade (e que viveu na França entre os anos 70 e 60) ele se preocupa com questões relacionadas à coletividade ao mesmo tempo em que precisa definir os rumos de sua própria vida. Não diferente dos amigos passa por diversas descobertas concernentes à idade, o que inclui sexo, drogas e rock n´roll. O olhar do protagonista é um olhar perdido e ao mesmo tempo curioso em relação à vida. Ele tem o desejo ardente de mudar o mundo e por isso não titubeia na missão de enfrentar o repressor sistema mesmo que para isso arrisque várias vezes a própria vida. Mas no íntimo, é um jovem como outro qualquer com vontades próprias e sonhos que são somente dele. Seus desejos pessoais se refletem em seu talento para a pintura, o objetivo de ser cineasta e o gosto pela música. Tudo misturado ao viés político que dominava os tempos de outrora. 

O grande dilema do filme é exatamente esse: coletividade versus individualidade. Como equilibrar as duas coisas? Nos dias atuais, é fácil observar o quanto a questão da coletividade tem perdido espaço para os interesses particulares. Muito disso, certamente, é fruto de um capitalismo selvagem que cada vez mais deteriora as relações humanas. Mas, como mostra o filme, houve um tempo em que as pessoas, principalmente os jovens, eram engajadíssimos. Eles acreditavam e lutavam por um mundo melhor. No entanto, esse projeto revelou-se uma utopia e a frustração veio logo a reboque. Talvez isso explique a geração pós-moderna apática que temos hoje. Somos frutos de uma geração frustrada e isso acarreta conseqüências complexas e difíceis de entender numa simples análise.

Um dos pontos fortes da produção é que em momento algum ela é saudosista. Não se pretende imaginar aquele momento como um tempo melhor do que o atual. Aquele pensamento idealista de que no passado tudo era perfeito apesar dos problemas vividos. Numa passagem do filme, o jovem protagonista lê uma poesia para a namorada que diz: “Eu odeio os velhos poetas murmurando sua juventude passada”. Esse é exatamente o espírito desse filme. Não há espaço para lamentos. O intuito é lançar um olhar sobre esse passado, acompanhando, por meios de seus personagens, um período no qual se acreditava realmente em mudanças mesmo que no fundo esses mesmos jovens engajados não soubessem ao certo quem de fato era o inimigo. Lutava-se contra o sistema, mas não se tinha um foco específico, um alvo. Tudo que era contrário aos ideais revolucionários era o inimigo. Pregava-se a liberdade, mas a rebeldia se atestava em subversão, abuso de drogas pesadas, vandalismo. Onde se pretendia chegar? Qual o objetivo claro dessas atitudes? Quantas vidas custam o preço de ser livre? Por que esse espírito libertador enfraqueceu-se com o tempo? Até que ponto a opção pela violência é o caminho para o tal "mundo melhor"? E até que ponto esse fervor jovem não era produto de uma ingenuidade? São perguntas que ficam propositadamente no ar.

Os elementos fílmicos só colaboram para o bom andamento da história. Temos aqui, uma fotografia sóbria, de cores frias, meio foscas, trazendo um ar constante de melancolia. Um trabalho excelente de Eric Gautier, que fez semelhante exercício fotográfico no filme “Na natureza selvagem” no qual também imprimiu a mesma melancolia através da imagem. A trilha-sonora é composta de músicas como “Why are we sleeping?” do Soft Machine,  “Know” de Nick Drake, “Decadence” de Kevin Ayers entre outros títulos bem sugestivos para o momento histórico vivido. A construção histórica, os cenários e o figurino também são um deleite a parte. Tudo executado milimetricamente com charme, elegância e uma certa sensualidade.

No entanto, na minha opinião, a grande sacada do cineasta foi a relação feita entre o roteiro do filme e o próprio cinema como arte coletiva. Em diversos momentos, o filme se detém na arte cinematográfica como apoio da história que se deseja contar. Por exemplo, o protagonista da história tem como objetivo de vida fazer cinema, uma arte conhecidamente construtora de sonhos. Até que ponto o diretor do filme não estaria relacionando o mundo desejado pelos jovens daquela época a um sonho quase cinematográfico? O embate de um cinema feito para o entretenimento e um cinema feito para a revolução revela-se em uma cena na Itália na qual os revolucionários questionam a validade do cinema como arma utilizada a favor do movimento e não a favor da burguesia. A construção narrativa tem uma abordagem genial. No começo, o longa-metragem é mais movimentado com a seqüência do choque da polícia com os manifestantes e em seguida com o momento eletrizante dos jovens pichando e colando cartazes nas paredes de uma universidade durante uma madrugada, o que acaba gerando uma perseguição e um grave acidente. No decorrer da exibição, o ritmo torna-se mais lento. Acompanhamos os personagens em suas idas e vindas. Em suas buscas pela continuidade do movimento idealista e a dedicação às suas necessidades de âmbito pessoal, que muitas vezes não estavam ligadas aos ideais defendidos. Assim, pela própria estrutura do roteiro, o filme revela essa frustração dos sonhos que vai dominando pouco a pouco o ideal dessa juventude. O que era intenso, vibrante e elétrico no começo vai se tornando apático, lento e desacreditado no final.

As interpretações ao filme de Olivier Assayas podem ser muitas e uma boa obra é sempre assim, vasta de possibilidades. Num exercício interpretativo, é possível observar o papel entusiasmático da juventude como motor propulsor de mudanças. Não é à toa que as gerações mais velhas, a partir de determinada idade, passam a responsabilidade de melhorias do mundo para a geração vindoura. Até que ponto podemos lançar nas mãos da juventude a responsabilidade de transformação do mundo? O poder da juventude é contagiante, corajoso e urgente, mas bastante efêmero. Essa é talvez a faceta mais perigosa do ser jovem, sintetizada numa fala do protagonista que com certo ar de tristeza profere: “Tenho medo que minha juventude acabe”.

Assayas fez um filme em que misturou um pouco de tudo. Cinema, música, artes plásticas, política, drogas...Tudo poderia se tornar confuso, mas ao contrário, revela-se solo fértil para uma obra criativa e imperdível. O bom filme, para mim, deveria ser sempre assim: político sem ser partidário, religioso sem ser fundamentalista, gay sem ser panfletário, histórico sem ser didático. Convidaria toda a juventude contemporânea a assistir esse trabalho e assim quem sabe observar, de um modo geral, que a principal revolução que podemos fazer é primeiramente a revolução interna. No equilíbrio da transformação interna e posteriormente externa quiçá não encontraremos a paz tão almejada pela humanidade.

Depois de maio (Après Mai)
Direção: Olivier Assayas
Elenco: Clément Métayer, Lola Créton, Carole Combes, Felix Armand e India Menuez.
Roteiro: Olivier Assayas
França, 2013
Duração: 122 min




Gostou? Veja também: "Os Sonhadores" de Bernardo Bertolucci.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para Roma com amor

A cada filme de Woody Allen uma estranha e inquieta sensação tem sido provocada em mim (e garanto que em muitos de seus expectadores). A sensação é de, logo terminada a sessão,  pegar imediatamente um avião e partir para o país que serviu de cenário para o filme. Assim foi com "Vicky Cristina Barcelona" e também com "Meia-noite em Paris". Agora, o lugar da vez é a Itália, mas precisamente, sua capital, Roma.

O novo longa-metragem do cineasta traz várias histórias que não têm relação entre si. Não há aquele momento em que os personagens se encontram ao final para tentar explicar alguma coisa que ficou pendente na narrativa. As histórias, simplesmente acontecem e nós acompanhamos paulatinamente as consequências de seus atos por mais inverossímeis que eles sejam. Allen tem esse poder: transformar situações inusitadas em cenas palatavéis e engraçadíssimas.

Em foco, somos convidados a assistir histórias como a do arquiteto (Alec Baldwin) que de férias em Roma acaba por encontrar acidentalmente um jovem estudante de arquitetura (Jesse Eisenberg). A partir de então, o experiente profissional passa a dar conselhos amorosos ao jovem inseguro. Como se fosse um fantasma, ele surge nos momentos mais embaraçosos do rapaz para lhe alertar que determinada ideia pode ser um desastre, como por exemplo: transar com a amiga (Ellen Page) da namorada. Temos os pais de uma jovem americana que vêm conhecer o noivo que mora na capital italiana, cujo pai é agente funerário com um tremendo talento de tenor, mas ele só é bom cantando debaixo do chuveiro. Há também o jovem e sua noiva que vêm de uma cidade do interior para morar na cidade grande e acabam envolvidos num imbróglio no qual farão parte as presenças insólitas de uma prostituta (Penélope Cruz) e um assaltante de hotéis. E ainda, observamos a vida do pacato homem italiano (Roberto Benigni) que se vê lançado ao mundo das celebridades sem entender muito bem o porquê.

Todas as tramas vão sendo desenvolvidas envoltas de ruínas, monumentos, jardins e pontos turísticos de Roma. Um verdadeiro cartão postal audiovisual. Alguns momentos do filme são puro escapismo, como é o caso das cenas da personagem de Penélope Cruz. A profusão de personagens, por vezes, tornam o filme um pouco arrastado. Mas quando a câmera do diretor mira nos personagens dele mesmo (Woody Allen também atua como ator) e de Benigni é que o filme encontra a sua força. Com esses perfis humanos, o talentoso cineasta consegue fazer uma baita crítica à fama e ao culto vazio de celebridades instantâneas, revelando através do ridículo o quanto o mundo e o próprio homem são banais. Pelo elenco de bons atores, pelas piadas inteligentes, e por estar acima da média num momento de filmes bastante rasos esse filme torna-se essencial e merece ser visto. Simples, divertido e com muito a dizer.

sábado, 9 de junho de 2012

Branca de Neve e o Caçador

(Esse texto contém spoilers)

"Espelho, espelho meu. Existe alguém neste reino mais bela do que eu?". A célebre pergunta feita pela rainha-má diante do espelho na perene história de "Branca de Neve e os sete anões", ainda hoje, em pleno século XXI, abarca questões prementes da humanidade. Nessa secular obra, a vaidade é o tema principal e nas mãos do diretor estreante Rupert Sanders ganhou uma bem-vinda releitura épica e sombria. Esses contos fantásticos, apesar de destinados ao público infanto-juvenil, nada têm de ingênuos. São histórias que abraçam uma série de assuntos relevantes a todos nós, desde que passamos a pensar e a refletir sobre a nossa condição nesse mundo. A busca da beleza eterna, a imortalidade e o medo da velhice são as entrelinhas que dão um viés atemporal ao texto dos irmãos Grimm. Se num momento, a trama pode ser abordada apenas como a luta entre o bem e o mal, mas aprofundadamente pode ser lida como uma narrativa sobre as inquietações humanas que perturbam o homem de forma universal.

Ao olhar-se no espelho, a madrasta de Branca de Neve, muito mais que questionar a própria beleza, está questionando a si mesma sobre a passagem do tempo. É óbvio que existirão outras mulheres mais jovens e belas do que ela, afinal, o tempo passa inexoravelmente para todos. Diante da resposta do espelho, que no filme se personifica à frente da rainha, vemos a raiva estampada no rosto da personagem, que diante da finitude da vida desespera-se. Assim, como no mito de Narciso, a vilã deseja possuir a beleza alheia e daí surge a sua ruína. A megera, ao ver o tempo passar implacavelmente, dotada de poderes mágicos, absorve vidas num ciclo ininterrupto. Destrói o mundo em busca de um objetivo. Aqui, circunscreve-se uma metáfora sobre o poder. Sua força provém da juventude roubada, contudo, sua fraqueza advém do desespero. A grande moral dessa história é que a a luta do homem contra a efemeridade da vida é vã e toda beleza é sempre finda.

A mais nova moda hollywoodiana são as adaptações de famosos contos de fadas para às telas do cinema. Assim, "Chapeuzinho Vermelho" teve duas adaptações. Uma na forma de animação em "Deu a louca na chapeuzinho" e outra recriada para jovens sob o título "A garota da capa vermelha". "Rapunzel", outro famoso conto, também ganhou vida nos pixels de um computador na animação "Enrolados". Agora, é a vez de "Branca de neve e os sete anões" ganhar novas versões. A primeira, "Espelho, espelho meu" mais voltada para à comédia, e estrelada por Julia Roberts, foi um verdadeiro fiasco. A segunda, no entanto, teve destino mais próspero. Se o filme não é brilhante a ponto de entrar para o hall de grandes obras cinematográficas, ao menos é uma produção que não faz feio diante da proposta de entreter o público.

"Branca de Neve e o Caçador" acerta em cheio ao dar um enfoque mais épico e aventuresco à história da menina atormentada pela madrasta. O enredo do filme conta a história de uma jovem (Kristen Stewart) destinada a ser rainha que tem o trono roubado ardilosamente pela nova esposa de seu pai. Após anos presa à uma torre, a princesa consegue fugir e acaba na perigosa Floresta Negra, onde muitos que se aventuraram jamais conseguiram sair vivos. Sabendo que a enteada é a sua única forma de se manter enternamente jovem, Ravenna (Charlize Theron) envia um caçador (Chris Hemsworth) para resgatá-la, lhe prometendo trazer a esposa falecida de volta à vida. É claro que ele acaba percebendo que Branca de Neve é mais vítima do que poderia supor e que fora enganado pela maléfica soberana, assim, acaba por ajudar a heroína. Não há grandes novidades no roteiro, como se pode perceber. Aliás, vários clichês tomam conta da película a todo o momento, mas isso não interfere na produção de forma mais significativa, afinal, sabemos muito bem como é a história original do conto e diante de uma adaptação não seria nada fácil fugir desses clichês.

A produção de "Branca de Neve e o Caçador" é esmerada. Direção de arte, cenários, figurinos, maquiagem, efeitos visuais e fotografia mereciam ao menos uma menção ao Oscar do ano que vem. Tudo é milimetricamente bem pensado, bem executado, o que faz o filme torna-se agradável aos olhos. Observe a sequência em que Branca de Neve e os sete anões chegam ao mundo das fadas onde criaturas fantásticas surgem diante de nossos olhos. São cenas de grande beleza (produzidas para serem apreciadas numa tela grande de cinema, que fique bem claro) e que não negam ao filme sua aura de conto de fadas. A dimensão épica que invade cada parte do filme o torna ainda mais palatável e menos ingênuo. A empreitada hollywoodiana está mais para "O Senhor do Anéis" do que para "Crepúsculo" e isso é mais que um alívio para quem está cansado de ver histórias melosas voltadas para adolescentes. A atuação de Charlize Theron como Ravenna é um deleite. A atriz consegue através de seus olhos uma interpretação intensa que vai além do medíocre, algo que aconteceria facilmente caso outra atriz sem carga dramática fosse escalada para o papel. Charlize consegue por um simples olhar demonstrar proporcionalmente sadismo e serenidade caracterizando perfeitamente a personalidade delirante de sua personagem que, ao sorver vidas para ficar jovem, destrói toda a esperança de um povo. Levanta-se a questão: Quantas vidas são necessárias para alimentar um devaneio?

O longa-metragem, na minha opinião, não é de forma alguma ruim, mas poderia ser bem melhor diante das possibilidades que caberiam dentro do roteiro. Poderia, por exemplo, ser mais sombrio, sem medo de sangue (atenua-se a carnificina em função do público-alvo), poderiam ter escalado outra atriz para o papel de Branca de Neve e não a atriz-sensação do momento como chamariz para as bilheterias, em virtude de sua fama nos filmes da série "Crepúsculo". Imaginei Anne Hathaway, perfeita para o papel. Mas para os padrões de Hollywood, ela já deve ser considerada velha demais. O roteiro poderia dar espaço para questões existenciais mais profundas, não precisaria ser um Fellini, afinal, estamos falando de entretenimento, mas dar ao filme tintas mais reflexivas, não seria nada mal. Aliás, é no roteiro que residem os maiores problemas. Há grandes e imperdoáveis furos que um bom observador notará facilmente: como explicar a demora do espelho, sendo ele onisciente, para identificar Branca de Neve como uma ameaça ao reinado e beleza de Ravenna? E como Branca de Neve aprendeu tão rapidamente a nadar, cavalgar e lutar se ela ficou quase a vida inteira presa numa torre? São pequenos detalhes não explicados na intenção maldita de transformar a protagonista em uma guerreira. Tim Burton incorreu no mesmo erro com seu enfadonho "Alice no país das maravilhas". Creio que isso se explica pelas mudanças do comportamento feminino nos tempos atuais nos quais as mulheres desejam ser representadas de maneira mais ativa e menos vitimizadas.

É o mesmo roteiro com furos, que também cria situações bem interessantes, como por exemplo a cena da mordida na maçã. O roteirista criou uma situação logo no início do filme que nos distraí habilmente para o derradeiro momento. Nos diálogos de alguns personagens há lapsos do que a narrativa poderia ser, como num momento no qual um dos anões fala ao caçador que ele tem olhos, mas não vê. Ou na cena em que um personagem diz: "A morte poupou a vida dela" e Branca de Neve retruca dizendo: "A morte não poupa ninguém". Passagens como essas revelam a base do conto que foi adaptado: a mortalidade é inerente ao ser humano e a beleza pode ser um tormento. Há uma cena que exemplifica muito bem essa última afirmação. Particularmente, achei muito criativa, a ideia da aldeia onde vivem pessoas que provocam cicatrizes em seus próprios rostos na esperança de se manterem imunes à falta de tino da monarca.

Beleza, poder, obsessão, velhice e morte. As temáticas presentes nesse enredo revelam a longevidade do texto. Numa sociedade narcisista como a nossa, não há temas mais atuais. Clínicas de estética lotadas, desespero diante das primeiras rugas, ilusão de que a velhice nunca vai chegar e quando chega: negação total. Qualquer semelhança, não será mera coincidência. É claro, estamos falando de um filme hollywoodiano e não de um tratado sobre a condição humana, mas se as questões aqui abordadas foram trabalhadas pelo longa-metragem, muito mais pelo potencial literário do conto, pode-se dizer que, apesar das falhas, temos um filme digno de ser assistido.

Dica: não fique só com o filme. Após assisti-lo, procure o conto original e leia-o. Vale o conhecimento.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Inquietos


O cinema já produziu milhares de histórias que narram os últimos dias de uma pessoa com alguma doença terminal. Como então, iremos encontrar alguma novidade num roteiro no qual sabemos de antemão tudo o que vai acontecer? O elogiado diretor Gus Van Sant ( Milk, Gênio Indomável) escolheu exatamente como tema de seu novo filme a questão dos "últimos dias de vida" e suas implicações, mas conseguiu imprimir um viés diferenciado ao abordar a questão.


"Inquietos" (Restless) fala da morte o tempo todo. Os personagens são os excêntricos Annabel ( Mia Wasikowska - A Alice de Tim Burton) e Enoch (Henry Hopper - filho do ator Dennis Hopper). Ele quase morreu num acidente que vitimou seus pais. Ela está com câncer terminal e tem apenas três meses de vida. Os dois têm uma relação muito forte com a morte e isso acaba os aproximando. A grande sacada do diretor ao realizar seu novo longa-metragem foi não apelar para exageros e sentimentalismos. O filme, em momento algum, é melodramático. Pelo contrário, tudo é muito sutil, leve, elegante e sensível.

Ao colocar dois jovens relacionados fortemente com a questão da perda, Gus Van Sant lançou um olhar desmistificado sobre a morte. Trata-se de um olhar mais irônico do que um olhar tristonho. É engraçado observar que quase não há lágrimas durante toda a projeção. Isso acontece apenas numa breve cena na qual a irmã de Annabel chora compulsivamente diante do espelho. Para o jovem casal, a morte é algo natural. Eles não compartilham a postura do senso comum e, inclusive, ensaiam o momento da partida como se a vida fosse uma grande peça de teatro. A morte, para eles, é um ciclo pelo qual todos nós um dia passaremos. Não é à toa, que a protagonista é fã de Charles Darwin, o grande teórico da evolução das espécies. Ela passa os dias de sua frágil vida memorizando nomes científicos de pássaros e detalhes como, por exemplo, a expectativa de vida das aves, que é bastante curta. Há também o amigo imaginário de Enoch, um japonês marcado pela perda da mulher na bomba de Hiroshima. Um elemento que, na minha opinião, poderia ser melhor explorado para entendermos o comportamento psicológico de Enoch.

É um filme simples, com boa trilha-sonora e um trabalho muito interessante de fotografia que dá a produção todo um quê de pintura onírica. Afinal, a relação dos jovens protagonistas será efêmera como um sonho e disso eles não poderão escapar.